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O cinema vai te contar algo que você não sabe

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Como aprender com o cinema sem se tornar o chato dos filmes? É uma pergunta que me faço frequentemente, pois a minha maior tentação, ao chegar nos créditos, é correr para contar como foi bom ter assistido tudo aquilo, falar da fotografia maravilhosa, daqueles planos-sequência realistas, dos efeitos especiais fantásticos, de como as atuações me convencem e de como o roteiro é fascinante. É difícil resistir àquela vontade de rasgar elogios ao diretor e quase impossível conter o nosso ego brilhando ao ter assistido e gostado de um longo e difícil Munique (2005), de Steven Spielberg. Mas, num primeiro momento, é fundamental resistir a esse desejo incessante de tagarelar sobre cinema, pois quando falamos sobre cinema, não passamos a nossa experiência para os outros da mesma forma como apreendemos ela vendo o filme propriamente. Esse é o ponto. O cinema é a arte de nos transportar para “sonhos reais”. O cinema é o instrumento capaz de dar forma àquelas ideias que temos do...

Ditadura do casamento: um mundo de fanáticos

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Se O Lagosta (The Lobster, 2015) fosse um quadro, os amantes de artes plásticas contemplaríamos uma imagem curiosa e singular. O grego Yorgos Lanthimos, autor e realizador dessa história, tem uma mão incontestavelmente original. O filme fala sobre a presença do indivíduo no mundo e sobre o incontornável. Abstrato, subjetivo e excêntrico são alguns dos adjetivos que podem conceituar a alegoria de Lanthimos, que abarca, num só enredo, reflexões sobre ditaduras e casamentos. Saiba, antes de tudo, que é um filme belo, que lhe agradará os sentidos, mas que lhe deixará de cenho franzido, pois, por mais estranha que a metáfora pareça, você sentirá que praticamente vivemos nela. Um mundo de fanáticos. Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um/a parceiro/a. Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de ...

Por que a professora de piano frequenta cinema pornô e bate na própria mãe

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A realidade, dada a sua natureza revolta, é feita de certa repetição. Talvez se usássemos trilha sonora na vida real, as melodias do piano, repetitivas ou anárquicas, dariam cor à nossa vida. A rotina é a disciplina que doma a vida. É assim que se parece a minha primeira leitura do filme A Professora de Piano (2002), dirigido pelo virtuoso diretor austríaco Michael Haneke. Isabelle Huppert é a pianiste Erika Kohut, que dá aulas num conservatório de alto nível em Viena para jovens musicistas. Erika frequenta cinemas pornográficos e sex shops para escapar da influência de sua mãe dominadora. Tudo muda quando um de seus alunos se propõe a seduzi-la. É desafiador tratar aqui no blog sobre um filme de Haneke. Chamá-lo de virtuoso seria um ponto fora da curva, eu diria, já que ele é costumeiramente denominado louco, perverso, um diretor que gosta de chocar. Mas eu diria que Haneke é o diretor que tem excelência em furar as aparências, em penetrar o âmago do ser humano, em des...

Anomalisa: um estudo social sobre o amor fugaz

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Como seria uma história em animação contando a vida dos adultos? Por que ninguém havia pensado isso antes? Foi a minha inquietação quando eu descobri  Anomalisa  (2016, drama/romance), o filme mais recente do meu querido e excêntrico roteirista Charlie Kaufman. Demorei algum tempo para assisti-lo, me perdi no meio do caminho contemplando  Sinédoque, Nova Iorque  (2008, primeira direção de Kaufman), um drama subestimado pelo público e crítica sobre um dramaturgo que intenta realizar um espetáculo megalomaníaco sobre sua própria vida. Acho interessante que, muitas vezes, o impulso criativo de Kaufman é o mais honesto possível com o seu público: nós só podemos falar sobre o que vivemos e  compreendemos. Provavelmente, é mais fácil falar sobre si mesmo. É terapêutico, na verdade. Anomalisa , como o próprio título sugere, é uma estória incomum. Não é apenas uma animação adulta, é um  stop motion . O desafio é duplo, você transpor um roteiro para um univ...

Minha primeira maratona do Oscar

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Uma experiência marcante que eu tive com o cinema foi fazer uma maratona de filmes do Oscar. Peguei esse costume nos últimos anos porque é a premiação mais tradicional. Até quem não gosta de cinema a conhece. Na edição de 2014, eu assisti a quase todos os filmes, meio que levado pela maré de comentários nas redes sociais e acho importante compartilhar isso com vocês. Provavelmente, todo cinéfilo já acompanhou e se deslumbrou com aqueles vários títulos disputando, cheios de cartazes, de trailers, críticas e entrevistas nos jornais; Hollywood em festa, artistas distribuindo sorrisos na televisão. É a parte glamourosa que muita gente se encanta, é o espetáculo americano, the show . Essa foi uma das formas d'eu me aproximar um pouco mais do cinema. Naquele ano, disputaram a categoria de “melhor filme”, todos estreados em 2013, os seguintes concorrentes: Trapaça (Drama/Romance Policial, por David O. Russell), Capitão Phillips (Thriller/Drama, Paul Greengrass), Clube de Co...

Snowden e 1984: quando a ficção científica se torna realidade

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“ Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.” Esse é o slogan do Partido que governava o país imaginário Oceania, na aventura distópica 1984 , de George Orwell, lançado em 1949. Mais de meio século depois, o mundo inteiro vê a estória do romance inglês virar realidade, graças ao fenômeno Edward Snowden. O jovem hacker trouxe à tona o antigo dilema “liberdade x segurança”, quando publicizou o sistema de vigilância dos Estados Unidos da América (EUA), que põe olhos sobre qualquer cidadão ou instituição do planeta. O cinema permite compreender as semelhanças das duas histórias, dos seus respectivos protagonistas e destinos. Citizenfour (2014), documentário de Laura Poitras, e Snowden (2016), suspense biográfico dirigido por Oliver Stone, são registros cinematográficos que funcionam como janela para a reflexão que se segue. Quando a ficção científica se tornou realidade? Para que vocês entendam, é interessante ver a sinopse do livro : Winston, herói de 1984, úl...